Domingo, 16 de Junho de 2019

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Quem me vê assim escrevendo não sabe nada de mim



Estou apaixonada pela mulher por detrás dos meus olhos. Encanto-me pela liberdade de seu sorriso e pela queda brusca pelos sons. Não sei mais discernir os momentos entre o tempo e a ausência, pois ando só saudade. O perfume dos olhos úmidos ainda me lembram a ressaca das noites silenciosas, levando ao travesseiro passos largos de uma paciência que só o amor tem.

Com o tempo, os rostos se apagam. A mente é traiçoeira e, ontem mesmo, traços do seu toque se desgrudavam do meu corpo, carregados pelo vento de um dia sem brisa alguma. Receio pelos céus fumados na beira da janela ou no andar debaixo, à espera do aviso manso sobre a noite boa que só chegava depois do boa noite. Aperta o peito a juventude póstuma das lembranças endereçadas. Queria eu jogar minhas palavras à sorte dos correios receptivos, arriscando, quem sabe, um abraço despretensioso de papéis sem arrogância. Meus escritos não cabem mais em peitos cheios, apenas em almas leves.

Joguei aos ares a prece dos carinhos das madrugadas, convidando versões antigas a participarem de contos novos. Há sempre uma novidade engavetada no passado ou um passado insistente às margens do presente. Mas meu coração não endurece. Meu amor não se esvai e minha sede de entrega se multiplica a cada pisada feia. Pobres cacos juntados em sílabas de cartas quase queimadas. A lição é escrever mais, pois há quem acredite que poema vomitado é antídoto dos andarilhos amaldiçoados de amor. Mas, quanto a isso, não há o que fazer… Há os que carregam a sina de amar demais, enquanto há outros que descarregam no amor a sina de não se amar. Os ditos fortes que me desculpem, mas eu não troco de lado.

Hoje, ao acordar, lembrei um sonho com alguém. No intervalo de duas piscadas, escrevi três poemas. Nas proximidades do final do dia, já colecionava sete entre o almoço e o fim do expediente, sem contar os escritos pelos olhos e os sentidos pelas mãos. E é assim que a miséria das lembranças goza nas mentes férteis. Adubadas com rima, as palavras transformam-se em tudo o que o tempo é capaz de propor. Descomprometidas e egoístas, se apossam da eternidade ao mesmo tempo que eternizam. Quem me vê escrevendo não sabe nada de mim, embora o que há em mim acredite na idoneidade da escrita. Tudo mentira. Há vezes em que é melhor parar o texto no meio.

 

THIANE ÁVILA.

 

 










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